Conhecida como “Furacão Hazel”, ela administra, aos 90 anos de idade, a sexta maior cidade do Canadá e dá um show de energia e pulso firme.
* Entrevista exclusiva para Cleida Steinmetz
Ela é miúda, tem a fala firme, personalidade forte e um aperto de mão intenso. É séria, mas ao mesmo tempo amável. Isso descreve em poucas palavras o perfil da prefeita mais idosa do Canadá e que vem chamando a atenção dos brasileiros que moram na Grande Toronto. Estamos falando de Hazel McCallion, a indomável prefeita de Mississauga.
No comando desde 1978, ela completou 90 anos de idade no dia 14 de fevereiro e quem a conhece pessoalmente se impressiona com sua figura ativa, cheia de saúde e energia. Seu pulso firme, determinação e o estilo de administrar a cidade como se fosse uma empresa a conduziram para o 12º mandato em 2010, tornando-a a prefeita mais reeleita no país, muitas vezes sem nem precisar fazer campanha. Não é à toa que carinhosamente é chamada “Furacão Hazel” por seus apoiadores e pela mídia.
Marcada com quase um mês de antecendência, por causa da agenda superlotada, consegui 30 minutos de seu tempo para uma entrevista exclusiva que fiz em seu gabinete na prefeitura de Mississauga. Sempre apressada e preocupada com o próximo compromisso, foi implacável nas respostas e por um momento chegou a resmungar das “intermináveis perguntas”. Não gosta de falar de si, mas sim da cidade, dos projetos realizados e dos que ainda estão por vir. Disse que tem uma grande admiração pelo Brasil e deixou uma mensagem de boas vindas aos brasileiros que por aqui residem (a íntegra em video pode ser vista em http://sharing.theflip.com/session/44c40c7883922d70a1258eb95376309a/video/70896511). Confira a entrevista a seguir.
Esse é seu 12º mandato como prefeita de Mississauga. Por quanto tempo ainda pretende trabalhar assim?
Esse será meu último mandato como prefeita, que vai até 2014. Depois vou parar.
Quantas horas por dia a senhora trabalha?
Eu levanto por volta de 5h e geralmente vou dormir às 23h. Trabalho muitas horas, estou sempre trabalhando [nisso ela mostra a agenda do dia, com pelo menos 10 itens, entre audiências e reuniões]. Hoje tenho uma reunião às 19h com o Comitê de Planejamento e Desenvolvimento e essa reunião vai durar no mínimo duas horas. Muitas vezes passamos da meia-noite. E isso pode acontecer hoje de novo, pois temos muito a tratar. E amanhã de manhã já tenho outra reunião marcada para as 7h30.
De onde vem toda essa energia, quando a maioria das pessoas na sua idade já está aposentada?
Estando de bem comigo mesma e tendo saúde. Eu sou muito saudável e não tomo nenhum remédio. Sempre me sinto bem e disposta. O único remédio que tomo é aspirina para dor de cabeça. (risos)
A senhora sente muita dor de cabeça?
Não, quase nunca.
Quem ou o que lhe inspira a trabalhar na prefeitura?
Mississauga era uma cidade dormitório de Toronto quando eu assumi. A maioria das pessoas ia para Toronto de manhã para trabalhar. Nós revertemos essa situação. Criamos uma enorme base econômica. Isso me faz levantar todas as manhãs por esta cidade maravilhosa.
Qual o seu principal objetivo antes de largar a política?
Tornar Mississauga uma cidade global, providenciando serviços para as pessoas e as empresas. Garantir todas as comodidades necessárias para que seja uma cidade global bem sucedida.
Qual o seu maior arrependimento?
Não ter feito um trabalho melhor no que diz respeito ao planejamento do sistema de transporte para a cidade.
O que é importante para a senhora?
Essa é uma pergunta muito ampla, mas eu destacaria saúde e trabalho.
Tem e sempre teve o apoio de sua família por ser essa personalidade pública em que se transformou?
Sim, sempre tive cem por cento de apoio.
O que Mississauga representa para a senhora?
Essa é a minha cidade, onde as pessoas querem viver, criar seus filhos e estabelecer família.
Quais sãos os principais desafios em Mississauga hoje?
Estamos tentando administrar a cidade com os poucos fundos que temos disponíveis, mas é quase impossível. As prefeituras têm uma fonte de renda, que são os impostos e isso já não é suficiente. Quando eu assumi essa cidade, ela estava totalmente endividada. Consegui tirá-la do buraco e a mantenho assim até hoje, porque a administrei como uma empresa. Mas se continuarmos recebendo pouca ajuda federal, não duvido que em breve não tenhamos que recorrer a empréstimos para dar conta dos projetos. Como prefeita, tenho brigado muito com os governos estadual e federal para aumentar os fundos que recebemos. Finalmente conseguimos que os impostos de gás venham para nós, mas não é o suficiente. Enfim, temos muitos desafios, mas estamos prontos para isso.
O que a senhora destaca como a sua maior conquista?
Ter conseguido transformar Mississauga em um local que tinha 280 mil moradores em uma grande cidade que hoje tem 750 mil habitantes.
Tem algo que a senhora quer fazer como prefeita e que ainda não foi possível concretizar?
Sim, precisamos de mais fábricas, um museu maior, um estádio e um centro de convenções. Estamos trabalhando nisso há muito tempo. Duvido que vou conseguir terminar, mas eu quero pelo menos começar.
Acredito que vai ser muito difícil substituir uma prefeita como a senhora. Que tipo de personalidade, conhecimento e experiência o futuro prefeito de Mississauga deve ter?
Deve ter experiência em negócios e uma verdadeira noção do valor do dólar, ser uma pessoa que queira colocar a cidade em primeiro lugar e estar disponível e aberta a receber contribuições dos outros. Deve trabalhar em estreita colaboração com sua equipe, tendo sempre em vista o futuro.
Em 2007 a senhora recebeu o título de Mulher Mais Poderosa do Canadá. Como se sente com isso e por que acha que foi escolhida?
Eu não sei. (risos) Acho que olharam para o meu passado! Eu me sinto apreciada e honrada.
O que a preocupa nos dias atuais?
As mudanças na sociedade, coisas que acontecem aí fora, gente usando revolver e facas umas contra as outras. O negativismo da imprensa e a internet tem muito a ver com isso tudo o que está acontecendo no mundo. Estão acontecendo grandes mudanças e o impacto no Canada é enorme. Alguns incidentes que acontecem mundo afora tem a ver com isso. A integridade da imprensa tem que ser questionada. O público precisa fazer sua parte.
O que a senhora gosta de fazer nas suas horas de folga?
Cuidar do jardim e pescar.
Eu vi uma foto recente sua andando de bicicleta. A senhora tem esse costume?
Sim. Essa foto que você viu é de um ano atrás quando eu fui de bicicleta até a prefeitura para enfatizar o impacto na natureza usando esse veículo de transporte.
Mississauga é um caldeirão de nacionalidades, tradições, costumes e necessidades. Como a senhora e os membros do Conselho Municipal podem assegurar que todos os residentes na cidade tenham chances iguais de se expressar e continuem vivendo em harmonia com seus vizinhos?
Lutamos pela igualdade, mas as pessoas devem fazer a sua parte buscando se integrar e aprendendo umas sobre as outras. Somente assim elas poderão se sentir respeitadas e apreciadas.
Por que a senhora acha que tantos imigrantes do mundo inteiro escolhem Mississauga para viver?
Por causa do Aeroporto Internacional. Eles desembarcam aqui e ficam aqui.
A senhora sabe que muitos brasileiros moram em Mississauga e na Grande Toronto?
Sim, e fico feliz em saber que os brasileiros estão vindo para cá.
Conhece o Brasil?
Ainda não, mas gostaria muito de conhecer.
Considerando que milhares de brasileiros vivem no Canadá, gostaria de deixar uma mensagem especial para a nossa comunidade?
Claro. É um prazer ter tantas pessoas do Brasil escolhendo Mississauga para morar. Os brasileiros são pessoas que fazem acontecer e têm se integrado na nossa comunidade de várias maneiras, dando uma contribuição importante para a economia. Quero que saibam que são bem-vindos e peço que se envolvam com as diversas organizações que temos para que possam dar sua contribuição e assim ajudar nossa cidade a ser ainda melhor. Eu espero visitar o Brasil, porque o país está realmente se colocando no mapa internacional. Assim, tenham orgulho de ser brasileiros, mas também tenham orgulho de ser moradores dessa excitante cidade de Mississauga.
Hazel’s Ping-Pong
Qual seu hobby favorito?
Pescaria.
Quanto do seu sucesso atribui à sorte?
Eu não sei. Trabalho duro é que te leva para frente.
Qual o seu livro favorito?
Black Beauty. É uma história inspiradora sobre um cavalo maravilhoso e eu gostava muito quando criança.
Qual a lição mais dura que teve que aprender?
Ir da área de negócios, onde atuava antes de ser prefeita, para a administração pública, e aplicar nela os conceitos de business.
O que sonhava ser quando era criança?
Ser uma mulher de negócios.
Qual foi o melhor dia de sua vida?
O dia em que recebi a Ordem do Canadá (a mais alta condecoração civil dentro do sistema canadense de honras).
Que decisão exigiu mais sua coragem?
No descarrilamento de um trem em 1979, que exigiu a evacuação de 200 mil pessoas em Mississauga.
Quem é o empresário que mais admira?
Bill Gates.
Vamos dizer que tenha $100 mil em mãos para investir. No que investe?
Dou para caridade.
Onde busca informações sobre sua área de trabalho?
Conversando com as pessoas, fazendo visitas às empresas.


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