
Brasil - Rio de Janeiro - RJ - 09/08/2009 - Leandrinho do Brasil em lance durante partida contra o Uruguai pelo Torneio Super 4, realizada no estadio Maracanazinho. Foto: Fernando Soutello/AGIF
Aos 28 anos, Leandro Barbosa é jogador de basquete do Toronto Raptors e se diz feliz na cidade
Para ele não importa se o chamam de LB, Leandro Barbosa ou simplesmente Leandrinho. O fato é: ele realizou o sonho de estar na NBA e, também o de ter uma filha. Desde outubro em Toronto, pode ser visto nos jogos do Toronto Raptors pelos muitos brasileiros que residem no Canadá.
Paulistano do bairro de Pirituba, periferia de São Paulo, é com humildade que o caçula de cinco irmãos traça sua evolução no basquete desde os quatro anos de idade. Fora do Brasil, o inglês já não é uma dificuldade. O frio é um desafio, mas o que é que esse brasileiro não venceu?
Ao lado de outros três brilhantes jogadores brasileiros (Nenê, Thiago Splitter e Anderson Varejão), integra o grupo dos quatro representantes do país na NBA (National Basketball Association). Confira abaixo, com exclusividade, uma entrevista do atleta e um vídeo com um recado de Leandrinho para a comunidade brasileira no Canadá.
Quando o basquete entrou em sua vida?
Foi através do meu irmão (Artur). Enquanto eu gostava de futebol, ele jogava basquete e, como eu estava sempre com ele, ele me mostrava como era. Minha mãe gostava porque distraía o pestinha de quatro anos que aprontava dentro de casa. Meu irmão não tinha muita chance no esporte, mas tudo que ele aprendia, me passava e foi percebendo que eu tinha talento. Aí foi que eu levei a sério. Na época, a gente trabalhava para ter o que comer e meu irmão estava tentando algo na vida do esporte. Apesar de não ter sucedido com ele, foi ele quem me ajudou a ingressar no basquete.
Como sua carreira iniciou?
Comecei no Clube Parque Continental, em SP. Era uma escola que revelava bons jogadores. Como era longe de casa e tínhamos muito gasto, decidi ir para o Palmeiras que era mais perto. Despois de um ano lá, fui para o Tietê; em seguida, para o Monte Líbano, onde fiquei dois anos; depois Esperia e, de volta ao Palmeiras, fiquei por três anos. Neste útimo, eu treinava em três categorias: a minha, a de cima e a principal. Era bem puxado, principalmente para ir à escola. Saía mais cedo da aula, chegava tarde em casa. Em 2001, o próximo time em que joguei foi o Bauru Tilibra, onde fui escolhido como revelação Paulista e fui Campeão Brasileiro. Como era somente categoria profissional e tinha jogadores mais famosos, tinha muita mídia e ganhei mais visibilidade.
E os EUA, como entrou em seu caminho?
Através do draft, que funciona como uma loteria de jogadores, fui parar os EUA. Jogadores que têm destaque em outros países podem ter o nome no draft, sendo que para isso é preciso ter um agente. Quando eu jogava no Bauru, era muito amigo do Nenê, que já tinha entrado na NBA, e ele falava de mim para os agentes dele. Com isso, eles fizeram meu marketing e entrei no draf com o número 28. O San Antonio Spurs me escolheu, me trocando em seguida pelo Phoenix.
Qual foi a sensação de estar na NBA?
Foi um sonho se tornando realidade. Aos cinco anos, eu prometi à minha mãe que um dia estaria na NBA e ia trazer os dólares para ela. Graças a Deus isso aconteceu. No dia seguinte em que cheguei no Phoenix, eu não queria sair do vestiário, era uma estrutura de primeiro mundo que eu nunca tinha visto. Enfim, decidi até dormir no vestiário. Tinha que viver esse sonho maravilhoso. No tempo que estive no Phoenix, ganhei um prêmio como melhor sexto homem, que é o primeiro a sair do banco, por ter bons números. Foi muito especial.
Pela primeira vez você estava ao lado de grandes estrelas como Steve Nash, Shaquille O’Neal…
Eu e Steve Nash somos melhores amigos. Ele é canadense, bem idolatrado aqui. Além deles, outros como Grant Hill, Stephen Jackson.
Isso te intimidava?
Nunca me intimidei… somente no sentido da língua. Porque eu não falava inglês quando cheguei nos EUA. Eu tinha tradutor, mas não queria viver com isso porque na minha posição preciso conversar com os jogadores. Então dispensei o tradutor para sofrer as dificuldades e aprender, o que me ajudou muito. Meus companheiros me corrigiam e foi importante.
Depois de sete anos no Phoenix, qual o motivo de sua vinda para o Toronto Raptors?
Eu tive uma contusão enquanto jogava no Phoenix, um cisto no braço direito, e não estava aguentando de dor para jogar, já estava mudando meu jeito de jogar em quadra. Pedi para fazer a cirurgia, eles não queriam porque estava perto dos playoffs. Mas fiz a cirurgia e voltei a jogar. Eu senti que meus minutos no jogo diminuíram, eu estava bem em quadra, queria jogar mais porque sabia que podia representar o time em certas decisões, mas me tiravam por conta do braço. Fui conversar sobre isso e eles não entenderam o meu ponto de vista. Pedi uma troca. Aí surgiu a opção do Hedo Türkoğlu que estava no Raptors e queria ser trocado.
E como está sendo?
É uma experiência diferente. Embora a gente não esteja fazendo uma boa temporada (e para mim é a primeira vez que isso acontece, porque eu venho de um time que só ganhava), estou aprendendo muita coisa. Ao frio, estou me acostumando. Gosto das pessoas, do país, estou muito feliz aqui.
Como você lida com essa mudança, a de estar num time que está perdendo?
É preciso ter paciência, saber sair nas situações e ficar com cabeça levantada. Os fãs estão sempre torcendo por nós, independente se perdemos ou ganhamos. É legal. O time precisa de reforços e vai acontecer, mas estamos fazendo nosso trabalho do jeito que podemos para dar resultados nao só para a cidade, mas para nós mesmos.
Por ser o único time do Canadá, há uma diferença na torcida…
A torcida é de hockey. Se você não tem raça dentro de quadra, é vaiado. Eu acho bacana, porque a partir do momento que vc está no jogo, tem que jogar basquete, não pelo dinheiro, mas pela paixão, até conseguir a vitória. Esse é o foco.
Durante essa temporada, vc ficou ausente de muitos jogos. O que ocorreu?
Tive uma contusão na coxa e fiquei três semanas fora. Foi ruim porque eu estava numa fase muito boa. Mas corremos esse perigo numa temporada de 82 jogos.
Você atua como ala e armador. Em qual posição você gosta de jogar?
Gosto de estar com a bola na mão, é quando consigo fazer as coisas acontecerem. Dizem que quem está com a bola, é armador, mas a minha posição é 2, na lateral. Mas sempre que o armador se machuca, eu passo a ser o substituto.
Há uns nove anos você defende a seleção brasileira de basquete. Você acredita na classificação para as Olimpíadas?
Acredito. Há duas vagas, vai ser difícil, mas não impossível. Temos bons técnicos e bons jogadores. Tenho muita vontade de estar com a seleção, é um orgulho muito grande. Existia um problema da vaidade dos jogadores, que viam a seleção como uma vitrine para sair do país, mas isso melhorou. Todos agora estão focados em ganhar títulos, cumprir objetivos e sonhos. A única preocupação quanto aos desfalques, é a possível greve da NBA, que vai dificultar a ida dos jogadores para integrar a seleção. Com a greve, a temporada começará depois e, se até 7 de janeiro não tiver acordo, não tem temporada. Os donos dos times pensam que estão perdendo dinheiro.
No jogo de sexta-feira, dia 11, você teve uma atuação espetacular, mas o jogo foi marcado por uma lance polêmico no final. O que aconteceu?
Quando jogamos contra o Indiana na casa deles, no final do jogo, eles já tinham ganhado e um jogador arremessou a bola fora do tempo e esta entrou. Isso caracteriza um desrespeito ao time que perdeu. Ficamos quietos, guardamos. Na sexta-feira em Toronto, tivemos a felicidade de ganhar e tivemos a posse de bola no final. Eu tentei fazer a cesta, errei, mas foi uma resposta ao lance que havia acontecido no último jogo. Eu não vou dar respeito a eles, se eles não fizeram o mesmo. O técnico do outro time me chamou e conversamos.
São de 6 a 8 meses jogando durante a temporada. O que você faz durante tempo restante?
Dependendo se for para o playoff ou para a seleção, são 5 meses de férias. Eu não consigo me distanciar do basquete, estou sempre jogando com amigos, batendo bola. Se não for basquete, é futebol. Tento ocupar meu tempo, estar em atividade para me manter fisicamente.
Você tem uma filha, a Alicia, de quase dois anos. Você a vê com frequência?
Ela mora no Brasil, mas a vejo muito. Ela está sempre aqui e agora, por exemplo, ficará comigo até final da temporada. Sempre quis ter um filho, ela é uma crianca que me dá muita felicidade. Às vezes estou muito bravo com as situações no trabalho e, quando chego em casa, abro a porta e ela vem direto me abraçar dizendo: papai, papai. Ela me dá muito orgulho. [se derrete]




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